



Chico. Apelido óbvio de um dos nomes mais comuns da língua portuguesa. E ele se apossou do codinome de tal forma, que se tornou o único. Referências a “Chico”, há muito, dispensam explicações.Centro-avante recuado, torcedor do Fluminense, carioca que morou em São Paulo e na Itália, Mangueira que emprestou seu nome e presenteou com um título a sua escola, pivete, ídolo, sambista, músico, letrista, ator, homem, pai, avô, mulher, dramaturgo, escritor, malandro, poeta. Quantas faces oculta o nosso eterno Chico? Coabitar um mundo com um Chico vivo é fazer parte da história. Como presenciar uma guerra ao contrário.
Canções imortais como “O que será?”, “Tatuagem”, “Cálice”, e mais incontáveis deleites da música se incrustaram na cultura nacional. Melodias que definem gerações, letras que escancaram almas. Um resgate à delicadeza perdida, ou jamais encontrada no país antes do seu surgimento. Um Brasil sem Chico seria menos Brasil. Como seria um Brasil sem mulata, ou um Brasil sem Pão de Açúcar.
“Com as canções e montagens teatrais que entrelinhas, contestavam a situação política do país durante a ditadura, experimentou a repressão”
Os anos passam, e à revelia do semblante que progressivamente mostra marcas do tempo, os tais olhos azuis ardósia têm seu brilho reforçado, tornando-o um galã atemporal, ratificando a afirmação de que “Diante de Chico Buarque, todo homem é um corno em potencial.” assinada por Nelson Rodrigues. Basta remeter, como argumento óbvio, aos milhares de mulheres e homens, que não se furtam em rasgar-se em elogios reverenciando o poeta. Um homem de sorriso difícil, introspecto, que gagueja pra falar, tropeça nas próprias palavras e aumenta o mistério.
Foi em 1944. Enquanto no Brasil, as vedetes e cassinos viviam seu apogeu, os Aliados invadiam a Alemanha, na segunda fase da pior guerra que o mundo já viu. Não é de se estranhar que Francisco, filho da pianista Maria Amélia e do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, tenha querido nascer do lado de cá do Atlântico.
A carreira mais que prolífera de Francisco Buarque de Hollanda iniciou-se aos 13 anos, quando o aspirante a mestre compôs seus primeiros sambinhas, tendo a aprovação de ninguém menos que Vinicius de Moraes, amigo do seu pai.
Vencedor de Festivais de Música, vezes ovacionado, outras nem tanto, teve em “A Banda” seu primeiro grande sucesso. Com as canções e montagens teatrais que entrelinhas, contestavam a situação política do país durante a ditadura, experimentou a repressão, chegou a se auto-exilar, e relata esse período em depoimentos atuais às risadas, com ares de criança que mexeu onde não devia sem que ninguém percebesse.
Resumindo o que não se resume, mais de 300 canções, abordando todos os temas poeticamente abordáveis, desde a fome no país até invasões arrebatadoras ao âmago feminino, seis peças de teatro, incluindo “Calabar”, “Gota D'àgua”, e a incomparável “Ópera do Malandro”; uma novela; quatro romances (dos quais dois se transformaram em filmes, e obtiveram os prêmios literários mais ambicionados do país); parcerias inesquecíveis com Tom Jobim, Edu Lobo, Ruy Guerra, Francis Hime, e mais uma infinidade de grandes obras consagradas. Ou sagradas por natureza.
Contradizendo, porém, Millôr Fernandes com a colocação “Chico Buarque é a única unanimidade nacional”, eu diria que não chega a tanto. Há quem afirme, por exemplo, que enquanto intérprete, ele deixa a desejar, com a sua voz anasalada, e a pouca inflexão que imprime nas palavras. E as suas participações nos filmes em que atua raramente arrecadam opiniões positivas. O ensaísta Dagomir Marzequi, a citar, colocou-o na sua lista pessoal de “superestimados brasileiros” argumentando que o auge da sua carreira aconteceu há um quarto de século, e que a sua obra literária só faz sucesso entre críticos literários esnobes. Ou, ainda, o cantor Lobão, que declarou na Feira Literária de Ouro Preto, depois de uma série de adjetivos nada amigáveis, que a música de Chico é “anêmica, sem energia, sem vivacidade”. Muitos amam, mas, há sim quem odeie.
Hoje, sem a pressão das gravadoras e editoras, aos 65 anos de idade, Chico Buarque deixa a sua legião de fãs confessos, ávidos pelo seu próximo presente. Dessa vez, até que não demorou muito. Três anos depois do lançamento de “Carioca”, disco que rendeu uma turnê de apresentações abarrotadas pelo Brasil e Europa, Chico lança seu novo livro. Assim... de sopetão. Sem avisar pra ninguém e sem que ninguém esperasse.
Luiz Fernando Veríssimo declarou em sua coluna que tinha gostado do livro mesmo antes de ler. Se tratando de um livro de Hollanda, é indubitável que ele não foi o único a pensar assim. O que por um lado é quase uma dádiva para um autor, já que antes mesmo do lançamento, a posição de “Best Seller” seria garantida, por outro, acompanha uma pressão abissal. Uma obra de má qualidade seria esmagada pela crítica. Porém, felizmente -principalmente para nós, leitores- as expectativas foram atingidas e quiçá, superadas, num livro onde Chico, escritor, consolidou um estilo absolutamente próprio.
Leite Derramado. Um título, sim, óbvio, tratando do que trata o enredo. Mas, não se há de contestar a arte que reside na obviedade. Notar a poesia do que passa despercebido no nosso cotidiano é para poucos. Haja vista Vinicius e o seu “Soneto de Intimidade”. A máxima que habita o inconsciente de todo brasileiro ganha nova roupagem. Perde o tom irônico, e ganha peso filosófico. Sem falar da capa, surpreendentemente duplicada. Disponível nas versões laranja e branca. A dúvida de qual levar pra casa ao se deparar com os livros na prateleira é só a primeira das inúmeras indagações que esse romance suscita.
Certa vez, Chico disse em entrevista que não se considera carioca da gema, apesar do que diz o samba enredo, por conservar um olhar estrangeiro, um deslumbramento sobre o Rio de Janeiro.
E é nesse cenário, ainda deslumbrado, que Chico Buarque desenrola uma trama belíssima, que visita docemente Botafogo, Copacabana, e até o subúrbio do Rio.
Escrito em primeira pessoa, Eulálio é um centenário conservador, bisneto de barão, filho de aristocratas, e que com o passar das gerações, vai perdendo tudo que tem, da fortuna ao amor próprio, passando inclusive por uma temporada na favela, até chegar num leito de hospital, onde ele vai contando a história da sua vida. Uma história da qual nem ele mesmo se lembra, ou não quer se lembrar. A sua esposa e grande amor, Matilde, é personagem fundamental no livro, e mesmo com as descrições detalhadas da mulher, termina-se o livro conhecendo nada dela. Por coincidência, ou inspiração proposital, a alusão à Capitu machadiana é inevitável.
Dos 4 romances, “Leite Derramado” é o melhor. E não é. “Benjamim” é um excelente livro, “Estorvo” é fenomenal. “Budapeste” e “Leite Derramado” são indescritíveis. Budapeste ganha em enredo, ganha em ação, ganha na angústia e na quantidade de catarses que causa no leitor. “Leite Derramado” ganha em lirismo e em emoção.
Não há uma só página em que não se queira roubar uma metáfora, uma frase, um pensamento de Eulálio, e guardar dentro da alma.
Segundo a escritora espanhola Rosa Montero, todo artista tem um fantasma que o persegue. Enquanto letrista, as cabrochas seriam um bom fantasma para Chico. Enquanto romancista, eu diria que a solidão.
Numa história onde não se discerne real de imaginário, é impossível não se apaixonar por aquele velho rabugento e só.
Há, no entanto, uma faceta inquietante no livro. Há algum tempo, em entrevista à Folha de São Paulo, diante da pergunta “Você ainda se considera de esquerda?”, Chico respondeu “Acho que sim.”. Apesar da crítica evidente a uma sociedade engendrada em preconceitos de classe e valores arcaicos, a história tristíssima do personagem central retrata, porém, a outra face da moeda. Ou da esquerda.
Um homem que corre na praia como num sonho porque seus sapatos se enchiam de areia, uma mãe que só acariciava as teclas do piano pelo luto ao marido, mas sem querer esquecer Chopin, sonhos em preto e branco, uma Matilde que sempre se vestia de laranja, uma filha infeliz que vive romances trágicos, uma morte deprimente de um neto reacionário, expressões chulas desoladoras associadas a uma linguagem erudita e muitas vezes rebuscada, uma travessia profundamente comovente pelo último século e reflexões extremamente aproximadas do ritmo real do raciocínio, são quase nada do universo que esse romance tem a oferecer.
Nada sobra e nada falta.
Imperdível.
Anna Ludmila, 22 anos, nasceu em Montes Claros, norte de Minas Gerais, cursa o quinto ano de medicina no Hospital dos Servidores do Estado, Rio de Janeiro. É cronista, ensaísta, e crítica literária.
Perfil