Outras obras, porém, como Mafalda do argentino Quino, ou Calvin e Haroldo do norte americano Bill Watterson, abstiveram-se da violência e voltaram-se para a simplicidade infantil. Mafalda e Calvin, cada um no seu próprio contexto, personalizam a sagacidade infantil para lidar com uma profundidade surpreendentemente simples temas desde a guerra fria até preferências alimentares. Quadrinhos aparentemente infantis, mas substancialmente adultos.
Já no Brasil, desvencilhar as tiras de jornal ou os quadrinhos da política ou do sexo sempre foi muito difícil. Autores dos chamados quadrinhos adultos surgiram no Brasil, mas sempre usando um humor sujo, exageradamente sexual, e muitas vezes de mau gosto. Aqueles que não escolheram fazê-lo acabam tornando-se demasiado infantis – Por falta de público? Talvez. Maurício de Souza, por exemplo, nunca foi profundo como Quino ou Watterson. Até alguns anos atrás, o mercado nacional era limitadíssimo quando comparado com a produção internacional.
Isso mudou. Os filhos brasileiros dessa geração de Watchmens, Mafaldas e Mônicas cresceram. Com lápis e borracha em punho propuseram a mudança, muitas vezes rejeitada por editores e empresários até hoje retrógrados, com raras exceções, como Angeli e Laerte. Desistiram por isso? De modo algum. De forma independente e corajosa usaram de novas ferramentas para mostrar, divulgar e criar quadrinhos brasileiros de qualidade, atingindo com maior facilidade aqueles que de fato procuravam por produções diferenciadas.
Sempre visando o interativo, os novos quadrinistas brasileiros divulgam por meio de blogs, twitters e Orkut o seu talento. Seria impossível enumerar a quantidade de conteúdo disponibilizado desta maneira. Concursos como o www.apaixonadosporquadrinhos.com são bons exemplos de como a popularidade dessas tirinhas online tem crescido. Uma grande vitória para os que acreditam num futuro produtivo para os quadrinhos brasileiros.
Infelizmente, porém, a escolha do humor pelo público ainda é um problema. Depois de séculos de mais do mesmo – Como já dito, piadas políticas e sexuais – O público, mesmo nesse novo ambiente, dá primazia para esse modo ultrapassado de fazer quadrinhos, resultando no surgimento de anomalias do humor negro como “Cyanide & Happiness” e seus derivados brasileiros, que como disse Rodrigo Leão, só criam e proliferam preconceitos. Mas não vamos nos concentrar na banda podre. Apresentamos abaixo dois dos nomes que mais crescem na blogosfera quadrinista, fazendo quadrinhos de humor simples e profundos na medida certa, ressuscitando o espírito que permeia por anos a produção internacional e que agora pode ser visto no Brasil.
Bichinhos de Jardim– Clara GomesNas palavras da criadora: “Pequenos, bobinhos e irrelevantes.”

O resumo do que foi dito. Desenhos simples, porém bem feitos, que passam a idéia de infantilidade, mas que na verdade escondem profundidade não vista na vulgaridade de outros.
Nóis Na Tira - Rodrigo LeãoNão, o nome não está errado. Oscilando entre quadrinhos introspectivos e de humor escrachado, Rodrigo Leão faz humor de qualidade e sem apelação. Os desenhos são uma atração à parte.

É isso. O caminho a trilhar ainda é grande, mas o primeiro passo foi dado. Os brasileiros mostram aos poucos que são capazes de construir quadrinhos de humor sem vinculação política ou sexualidade exagerada. Homem-Grilo, Nerdson e outros nomes dessa nova geração estão aí para provar. Podemos, com orgulho, dizer que sim, aqui fazemos quadrinhos de qualidade.