Não me esqueço de como aprendi a ler. Foi mais iniciativa pessoal do que inserção em um programa que promovesse a leitura. Política pública ou programas que promovessem a leitura eram inimagináveis. Sequer sabíamos que isso existia, pois morávamos no campo. Os livros que por lá surgiam eram aqueles utilizados na escola, uma instituição tão carente quanto tudo ao redor.
O contexto condicionava os atos, as atitudes, as decisões e as ações. Logo, então, fui atrevidamente explorando os livros didáticos. Porém, eles não me bastavam. E como outros materiais eram escassos, sempre que ia à cidade, na condição de guarda-costas de minhas irmãs mais velhas, ia rua afora recolhendo tudo o que pudesse ser lido. Nada escapava: recortes de jornais, revistas, placas, papel de bala, tudo. Lia pelo prazer de ver a letra impressa, a forma do sinal gráfico, a materialidade mesma da coisa.
Com o tempo, e à media que ia avançando no percurso curricular da educação formal, fui notando que os textos tinham coisas mais intrigantes, desafiadoras e deliciosamente abstratas às quais realmente importava: imagens mentais, opiniões, idéias, conceitos, significações, sentidos e representações, qual um bando abençoado de “entes” como que “ocultos” sob o entrelaçamento do alfabeto para nos dar a palavra, a oração, a frase, o parágrafo, a página, o capítulo, o texto inteiro.
Então essa multidão de “seres” cognitivos, teóricos, ideativos, formadores de materiais epistêmicos valiosíssimos, foram me seduzindo sempre e cada vez mais. Nesse ritmo, quando terminei o então segundo grau, fui logo escolhendo fazer os estudos filosóficos na universidade. Licenciei-me em filosofia e, imediatamente, comecei a lecionar as disciplinas de filosofia.
Nesse percurso, fui o leitor que minhas condições me possibilitaram ser, mas sempre apaixonado, amante dos textos, ciumento de livros e outros materiais que me inseriam naquela comunidade de “entes” intelectuais que sempre me fizeram bem. Eles me ajudaram no meu desenvolvimento pessoal, profissional, social, cultural, político e, também, ético.
Foi nesse último aspecto aí, o da ética, onde descobri que aquelas palavras, orações, frases, parágrafos, páginas, capítulos e textos inteiros nada mais faziam do que me transmitir princípios e valores, com os quais passei a entender que podia concordar, ou não. Nisso, dei de cara com a ideologia, esse “ente” que impregna nossa cultura para nos “formatar” de um jeito, e não de outro.
Perscrutando a ética e a ideologia, pude entender como os gregos começaram a concepção de educação nomeada de “paidéia”, voltada para a formação de um homem que se aproximasse do ideal de humano que eles legitimavam. Deparei, também, com a maiêutica socrática, com o idealismo platônico e o empirismo aristotélico, de onde pulei para os escritos helenistas e para a Idade Média, fundada no modo cristão de conceber a vida e o mundo.
Dos humanistas do Renascimento cheguei mesmo a estudar sistematicamente um autor: Thomas Morus. Dele aprendi o conceito de “utopia”, o “não-lugar feliz” a que todo homem aspira como desejo de felicidade e plenitude. Adiante, os modernos, começando por Descartes e fechando com Kant, entremeado por liberais e outros quetais, impressionaram-me como os formuladores do antropocentrismo e do individualismo, ancorado na tecnociência que nos rendeu a sociedade na qual hoje vivemos.
Ansioso pelo casamento entre justiça e liberdade, mais recentemente, autores críticos como os filósofos Marx, Nietzsche, Foucault e Deleuze, entre outros, cutucam-me para que eu aprenda a ressiginificar a vida e todo o existente. E eu gosto desses desafios, pois é no enfrentamento dele que posso recriar a vida e tentar vias de afirmação de um estilo existencial baseado na vida autêntica, simples e singular que a mim cabe desfrutar e tocar adiante da melhor maneira possível.
De toda essa trajetória, recolho a idéia de que ler é um ato subversivo. Ele nos lança no caminho da criticidade, essa que busca o que, o porquê, o para quê, o quem, o onde, o quando e o quando de tudo o que vem a ser colhido pelo nosso olhar. Assim, aquelas palavras, orações, frases, parágrafos, páginas, capítulos e textos inteiros continuam a me instigar e me mostrar que a melhor vida não é a que nos querem impor, que melhor liberdade não é aquela que nos dão e que a melhor justiça não é aquela que é ditada por terceiros, mas que o melhor em tudo isso é o que resulta de uma conquista, de uma construção diuturna sem a qual nada pode valer a pena. A isso chamo autonomia, para com a qual a leitura pode contribuir, subversivamente, ao contrário do que tantos senhores do mundo insistem em difundir.
Adjunto no Câmpus Universitário de Arraias
Wilson Correia é doutor em Educação pela UNICAMP, filósofo, psicopedagogo, professor universitário e “escrevente” de textos vários. É autor do livro “TCC não é um bicho-de-sete-cabeças” (Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2009)
Ensaio