Revista Leitura E Crítica


Do Editor

Evan do Carmo é filósofo, jornalista e poeta, reside em Brasília e é natural de Monteiro - PB. É autor de vários livros e foi um dos jurados na categoria contos do concurso “Gente de Talento” realizado pela Caixa Econômica Federal em 2007.

Hamlet x Dom quixote

Este ensaio poderia levar o nome de Cervantes e Shakespeare, se suas obras não fossem maiores que seus autores. Shakespeare e Cervantes habitam o ponto mais alto da literatura ocidental. Qualquer ser ficcional que tenha surgido nos últimos quatrocentos anos é uma mescla dos dois espíritos, ou é cervantesco ou shakespeariano.
Todavia como encontrar acertadamente um equilíbrio entre a importância dos dois? A meu ver, podemos nos aproximar de um entendimento sobre os dois autores por fazer uma comparação da alma de Hamlet com a alma de Dom Quixote.
Este ensaio pretende tratar os dois autores como mestres de sabedoria da literatura moderna, comparáveis apenas com o livro de Eclesiastes e ao livro de Jó, a Homero, e talvez com Platão.
O príncipe atormentado e o cavaleiro doidivanas. Ambos se apresentam como heróis, todavia sem objetivos claros, embora seus discursos afirmem o contrário. Qual é, por exemplo, o objetivo da busca ensandecida de dom Quixote? Acredito que não possa ser respondida esta pergunta. Não temos, por mais que nos esforcemos para compreender seus desígnios, competência para arriscar um adjetivo próprio para seu caráter incomum.
Quais são os pretextos legítimos de Hamlet? Poderíamos arriscar em vão, pois seu espírito é confuso. Já a busca magnífica do cavaleiro extremamente viril criado por Cervantes possui ecos de intenções para desvendar as leis do universo, como se tudo lhe fosse possível para alcançar um objetivo que não nos é transparente. Observamos isso na loucura que lhe é parceira por uma interminável viagem. O insucesso de Hamlet é o fato de ele residir entre dois mundos: o dos fantasmas e o da tragédia vingativa. No poema de Shakespeare apenas seu protagonista usufrui uma liberdade ilimitada, também por fazer uso da loucura para justificar seus atos.
Dom Quixote é uma bela efígie; a aproximação mais visível de um santo cristão;  ao contrário de Hamlet que é a própria imagem da parcimônia espiritual, um oco horroroso de carência de crença em Deus e em si próprio. Há críticos que afirmam que Dom Quixote seja a bíblia espanhola, como se tivesse fundado uma religião: o Quixotismo.
Hamlet é o embaixador da morte, enquanto Dom Quixote afirma que sua missão maior é derrotar a injustiça. A injustiça final para ele é a servidão extrema. Libertar os cativos é o modo pragmático com que o cavaleiro andante luta contra a morte.
Shakespeare não pode ser achado completamente em sua obra, nem mesmo em seus ensaios poéticos. É esta invisibilidade que faz com que alguns alucinados reclamem dele a autoria de sua obra, especialmente por sua complexidade de estilos. No que tange a direitos autorais, nenhum crítico ou fanático contestou até hoje se foi mesmo Cervantes quem escreveu o maior de todos os romances produzidos no ocidente. Já Cervantes habita em sua obra de modo prolixo e cumpre notar que ela possui três personalidades extremamente particulares: O cavaleiro, Sancho e o próprio Cervantes.
Discordo de alguns críticos que dizem que sua presença seja furtiva e sutil. Para refutar esta idéia, basta observar a vida do autor, o quanto sofreu antes e durante sua criação maior. A crueldade que esbanja em seu poema revela uma idiossincrasia autoral. Penso que não podia ser diferente, para quem perdeu a mão direita por conta de um ferimento de guerra ainda aos vinte e quatro anos. Cervantes foi preso e escreveu em ritmo acelerado a primeira parte do seu romance, depois foi acusado de roubo, também lhe roubaram as honras da primeira parte de sua obra e morreu em flagrante miséria.
Cervantes é ilimitadamente nebuloso. Shakespeare é análogo e esclarecedor: mesmo nos momentos mais melancólicos não para de jogar com palavras nem abre mão de um humor doentio. Sem contar com o fato de ser um assassino frio que mata oito pessoas incluindo ele próprio. Hamlet não precisa nem deseja nossa admiração e nosso afeto, mas Dom Quixote, sim, recebe ambos. Cervantes se apega à necessidade de ser humano, de suportar o sofrimento, por isso o cavaleiro conquista nossa admiração.

Hamlet tem em demasia a tragédia. A morte seria para Hamlet uma filosofia de confirmação do caos humano, de que a tragedia é uma boa saída para minimizar a consciência absurda da razão sobre o fim de todo ser vivo. Ao passo que a loucura seve para que a dor não seja tão dilaceradora.
"Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligiram, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos?"
"Ó morte orgulhosa, que festim está sendo preparado em teu eterno antro, para que assim de um golpe hajas derrubado tão ferozmente tantos príncipes?"
"Pois, quanto àquele que está unido a todos os viventes, há confiança, porque melhor está o cão vivo do que o leão morto. Pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação deles foi esquecida. Também seu amor, e seu ódio, e seu ciúme já pereceram, e por tempo indefinido eles não têm mais parte em nada do que se tem de fazer debaixo do sol.
Vai, come o teu alimento com alegria e bebe o teu vinho com um bom coração, porque o [verdadeiro] Deus já achou prazer nos teus trabalhos. Em toda ocasião, mostrem ser brancas as tuas vestes e não falte óleo sobre a tua cabeça. Vê a vida com a esposa que amas, todos os dias da tua vida vã que Ele te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade, pois este é o teu quinhão na vida e na tua labuta em que trabalhas arduamente debaixo do sol. Tudo o que a tua mão achar para fazer, faze-o com o próprio poder que tens, pois não há trabalho, nem planejamento, nem conhecimento, nem sabedoria no Seol, o lugar para onde vais."
Eis aí superioridade do livro de Eclesiastes. Aqui não há retórica. O autor é direto, não há mais alegria e prazer para o homem senão nas coisas matérias.
Assim como Shakespeare não se restringiu a um estilo especifico e por isso criou muitas obras fracas, Cervantes foi um dramaturgo fracassado em mais de vinte peças que não sobreviveram. Entanto, cumpre lembrar, que Cervantes em sua obra dá vida a muitas de suas almas literárias. Dom Quixote é tragédia e comédia, embora descanse em berço eterno como o maior romance ocidental.
Nenhuma obra que eu tenha estudado, que me lembre, mostra uma relação tão ambígua entre atos e palavras quanto em Dom Quixote. (Exceto em Hamlet.) O modo de criar é idêntico nos dois autores, embora fique bem evidente em Dom Quixote o preço da realidade, enquanto que em Shakespeare é o fantástico que se ressalta ― porque toda ação é teatral. Mesmo assim consegue se ironizar a eloqüência que é também característica dos discursos, tanto de Dom Quixote quanto de Hamlet.  À primeira vista, talvez pensemos que Hamlet esteja mais cônscio do peso do seu discurso que o cavaleiro, todavia a segunda parte do livro sombrio de Cervantes revela a consciência de Dom Quixote com relação a sua infâmia retórica.
Falemos não de comparações das duas obras, e sim de influências sobre os autores. São idênticas muitas fontes antigas para o texto de Hamlet. A primeira trata-se de Hrólfs saga kraka, uma saga legendária da Escandinávia. Nela, o rei assassinado tem dois filhos—Hroar e Helgi—que passam a maior parte da história disfarçados sob nomes falsos, ao invés de fingirem estarem numa condição de loucura—e é nisso que o texto difere-se do Hamlet de Shakespeare, onde o príncipe finge-se louco. O segundo é a lenda romana de Brutus, registrada em dois trabalhos latinos diferentes. O herói, Lúcio ("iluminado, luz"), muda seu nome para Brutus ("estúpido", "bravo"), mudando também sua personalidade, passando a ser "idiota" para evitar o destino de seu pai e irmãos, acabando por degolar o assassino de sua família, o Rei Tarquinius. Para mim, o que  deve ter influenciado Shakespeare com relação à demência de Hamlet foi a personagem bíblica de David. Quanto a Dom Quixote, ficaremos sempre devendo uma comparação. Acredito-o mesmo como estilo único, e, que continuará sendo uma obra eternamente singular.
Fiquemos, pois, satisfeitos. Não importa fazer comparações entre dois grandes nomes da literatura, pais da cultura ocidental. Todos nós temos na alma um Hamlet e um cavaleiro frustrado, justiceiro niilista como Dom Quixote. Se suas obras não são assim tão impecáveis é porque além de magníficas são humanas. Mesmo que já tenhamos feito nossas escolhas, os dois espíritos geniais ficcionistas continuarão nos influenciando de qualquer maneira.


Evan do Carmo



 

Atos secretos... O Best Seller de Sarney.

O homem é um animal bom, a sociedade é que o corrompe. Esta é a tese de Rousseau. Todos os homens ao crescer em grupos sedem a coerção social e passam praticar a corrupção, o jeito racional para atingir os fins desejados, pelos meios que lhes são cobrados para se igualar à maioria.

Na literatura há poucos exemplos de literatos corruptos. Um que me é bem clara a biografia é Francis Bacon, que apesar de filósofo era também político; talvez por isso, se evidencie a sua corrupção mais do que a sua obra. Temos agora no senado um caso crasso de um pseudo literato envolvido até o pescoço em imoral corrupção. Todavia não é nenhum segredo que isso ocorra com todos os grandes líderes de um país como o Brasil. Surgiu uma discussão entre os letrados, psicólogos e jornalistas, para se descobrir se todo mundo é corrupto. Vi dois grandes nomes da literatura brasileira em um debate na CBN, onde ambos permitiam a ideia de que sim, todo mundo é corrupto em seu campo de ação. Na discussão, porém, citaram uma frase antiga, que afirma que todo poder corrompe. É claro que o poder corrompe, e um poder supremo além de corromper tiraniza.

A educação seria o instrumento para exterminar a cultura dos coronéis da arcaica política que ainda se pratica aos olhos de uma opinião pública que é privada dos seus direitos de opinar.

Graças aos deuses da literatura que como escritor, o não nobre senador e ex-presidente da república não passa de um “nanico.” (Não querendo fazer analogia com a outra trupe de assaltabancos.) O mesmo escritor nunca será lembrado por seu oficio ficcional e sim pelo estrago que causou à moral da administração pública. Devo ainda ressaltar que do senhor Sarney lembraremos apenas de uma obra, que não é prima e sim neta. Sua obra-prima será sempre o Best Seller: atos secretos.




 

 

 

Fujam do ditos fenômenos

Em literatura nada se cria, tudo se copia. Que chavão horrendo. Todavia há muita verdade neles, e provavelmente por isso são chavões. É encantador observar leitores imaturos deslumbrados com a inteligência dos nossos autores contemporâneos.

Qual a origem do grandioso trabalho de Goethe? Dos grandes ensaios da “cegueira” ou “lucidez” de Saramago? É fácil encontrar as origens dos grandes fenômenos literários do nosso século, e de muitos dos séculos passados. Na essência criativa de cada autor, há de sobra plágios e paráfrases bem elaboradas.

Não precisamos ir muito longe para encontrar as pegadas do espírito criativo, dos deuses da literatura. Todo escritor antes de ter coragem de publicar precisa estudar milhares de outros autores. O fato é que a maioria deles aplica a máxima Nietzschiana: “o segredo da criatividade é não revelar a fonte".

Então vamos revelar aqui alguns segredos dos mestres criativos do mundo literário. Com um intuito nobilíssimo que é mostrar para o leitor comum e para os novos autores que não são peritos em literatura comparativa, que há um crepúsculo de ídolos em andamento, aqui na nossa humilde revista.

Começaremos por indicar as bases, filosofias e doutrinas que ajudaram a trazer à luz grandes nomes e prêmios Nobel de literatura.

Goethe estudou no início de sua criação, muita coisa infectada por teologia luterana, sobretudo os textos que deram origem à bíblia que temos hoje no ocidente. Para um mediano estudante de culturas mundiais, chega a incomodar o plágio encontrado em FAUSTO da história da tentação de Jó. A inspiração é irrefutável. O resto, o desenrolar é mera alegoria para camuflar a verdadeira obra que lhe permitiu criar a partir de.

Falaremos, portanto de um grande autor que não é muito lido em nosso país.

Albert Camus, que também é ganhador do prêmio Nobel. A temática do ensaio de Saramago é para bom entendedor, uma desleitura da Peste de Camus, ambos com enredos diferentes mostram a pobreza do espírito humano no que tange à solidariedade para com o semelhante. A peste de Camus triunfa como crônica primorosa sobre um romance bem escrito porém sem originalidade criativa.

Sobre as origens de Camus: um estudioso incansável da obra de Nietzsche, seu próprio pensamento filosófico do absurdo é reflexo de autores consagrados como Kafka e Dostoiévski. Todavia, não fica tão evidente o plágio de idéias como em Saramago, porque Camus não escreveu obras de cunho semelhante a dos seus mestres. Furtou-se a expor explicitamente sua herança. Encontramos no Estrangeiro, por exemplo, um pensamento quase singular, porque ele, com maestria astuciosa fala por um espírito que não esclarece suas andanças nos

universos kafkanianos, sobretudo em o processo.

Tanto Saramago como Camus são leituras obrigatórias, ambos têm uma

importância imensurável para a formação de um mundo melhor. O que fica

evidente nos dois autores é o humanismo que apregoam em suas obras, sejam elas originais ou não.

Não temos, portanto, interesse em reduzir imortais a meros cronistas da vida real. Apesar de nos mostrar o óbvio concernente ao espírito humano, vale ressaltar que acrescenta bastante suas leituras. Mas exortamos aos leitores da Leitura & Crítica a ficarem atentos aos ditos fenômenos. São, não raro, releituras de outros que não foram aceitos em seu tempo nem como bons autores.

Estamos propensos a nos curvar ante àqueles que são canonizados por outros mortais.

 

 

 

Machado de Assis, Capitu e a Flip.

Machado de Assis, Capitu e a Flip.

Na edição anterior, apresentei um breve comentário sobre literatura comparativa e prometi trazer nova crítica severa sobre as origens de grandes obras e de célebres autores. Pois bem, na literatura mundial há grandes farsas que se passam por criações originais, mas não falaremos por agora sobre estas unanimidades. Havia decidido não tocar em lixo para não contaminar de alguma forma nossos caros leitores. Todavia tive que repensar algumas das minhas opiniões concernentes à literatura brasileira. É fato que não temos cá grandes autores vivos, e, em outros tempos eu, movido por uma brutal ignorância, poderia afirmar que não temos nenhum autor vivo que mereça as honras literárias que devemos, por exemplo, a Machado de Assis. Sobre Dom Casmurro: Mesmo este não sendo o melhor livro do bruxo de Cosme é, sem dúvida, Capitu a sua melhor personagem. O enredo não é nada original e são bem visíveis o contexto histórico, costumes e vícios do século abordado; daí vem uma observação justa: que Machado de Assis seja mesmo um extraordinário cronista.
Dom Casmurro, ao contrário de memórias póstumas, que é indiscutivelmente sua grande obra, não revela muita sabedoria filosófica, pois me parece que o autor havia se desiludido com sua filosofia de “aos vencedores as batatas”. Prova disso é que Bentinho se casa e tem lá seus dias de felicidade matrimonial. Só no final encontramos um velho rabugento que trata friamente o próprio filho e que anuncia a morte da sua amada como se fora a morte de um cão sarnento.
O enredo é enxertado da canalhice católica. Como aquela história de padre, um sacerdócio atrofiado, que parece ser um grande fantasma presente em outras obras machadianas. Mas deixemos o defunto descansar em paz. Vale narrar a beleza da personagem mais adorável à minha análise. Os braços de Capitu ao desfilar nos bailes, os olhos de ressaca, a dissimulação ao apagar do muro os segredos dos dois meninos ainda inocentes e a astúcia para conquistar sua futura sogra, são psicologias de uma beleza incomparável. Machado maximiza o lirismo ao criar a verdadeira musa que todo poeta deseja. Experimentamos um sentimento nostálgico e incurável ao estudar sua obra. Hoje, infelizmente, o autor que desponta como seu sucessor (apenas) em popularidade declara em palestra alusiva à literatura que detesta escrever.
Na FLIP 2009 desfilaram com muita pompa alguns pseudo-imortais que são de fazer chorar aos críticos sérios que sequer apareceram por lá para aplaudir ou vaiar aquele circo dos horrores. Escritores insípidos como Chico Buarque e Richard Dawkins, foram, a meu ver, o maior dos equívocos. Um ateu declarado ‐ mais aguerrido na defesa de sua crença do que Lutero por suas "indulgências", atraiu, mesmo assim, uma massa de adoradores. Gente que ainda acredita que ser ateu seja sinônimo de inteligência ou de senso crítico incomum.
Sobre a Flip vale ressaltar que não cumpre mais o papel original que pretendia: elevar através da literatura o nível cultural dos seus congressistas. Hoje o que se vê é uma multidão de viciados que vai a Paraty com intuito único de se divertir, como se aquilo fosse, além de um circo bizarro, onde figuras estranhas fazem de tudo para chamar a atenção da mídia, um verdadeiro carnaval fora de época. Podemos afirmar sem medo de cometer injustiça para com os adeptos da  cultura que 30% eram da tribo literária e, que apesar de não estarem muito felizes com os autores convidados, puderam tirar proveito de algumas palestras.


Eis aí um artista como aprecio: modesto em suas necessidades. Só quer efetivamente duas coisas: seu pão e sua arte, - panem et Circen.

                                                                                                          Nietzsche

 
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